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O presidente Lula foi reeleito e se prepara para um quarto mandato cercado de desafios internacionais que vão muito além das fronteiras do Brasil. Com Donald Trump de volta à Casa Branca, Javier Milei na Argentina e um cenário global mais instável, a estratégia do governo será o chamado pragmatismo — ou seja, manter o diálogo aberto com todos os países, mesmo os que pensam muito diferente, porque isso é o que melhor protege os interesses econômicos e políticos do Brasil. Antes mesmo da posse, Lula ainda tem compromissos importantes pela frente, como a transferência da presidência da COP para a Turquia, a cúpula da Asean nas Filipinas, o G20 na Flórida e a Cúpula do Mercosul.
Um dos episódios mais delicados que o governo terá de administrar é o caso do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Derrotado por Lula no segundo turno, Flávio deixou o Brasil, passou pela Argentina e desembarcou nos Estados Unidos, onde publicou uma carta agradecendo a Trump e a Milei e contestando, sem provas, o resultado da eleição — já confirmado pelo TSE como seguro e transparente. O governo Trump concedeu visto humanitário ao senador mesmo após a Polícia Federal ter cancelado seus passaportes, embora o próprio Trump tenha dito que não pretende se envolver nas acusações de fraude. Para a diplomacia brasileira, o episódio adiciona uma camada extra de tensão a uma relação com Washington que já era complicada.
Os Estados Unidos seguem sendo o principal desafio da política externa do Lula 4. Trump impôs tarifas mais altas sobre produtos de vários países, incluindo o Brasil, o que encarece as exportações brasileiras e pode afetar empregos no país. Lula e Trump já conversaram por telefone sobre o assunto, e os dois países se reuniram na Organização Mundial do Comércio para tentar resolver a questão. Na área de segurança, o Brasil decidiu ficar de fora do chamado Escudo das Américas, iniciativa de Trump que o governo avalia como mais ideológica do que prática, mas pretende manter a cooperação bilateral no combate ao narcotráfico.
Com a Argentina, a situação é ainda mais espinhosa. Milei não apenas atacou Lula publicamente como viajou ao Brasil para apoiar a candidatura de Flávio Bolsonaro e, depois da eleição, permitiu que o senador cruzasse o território argentino a caminho dos Estados Unidos — o que gerou críticas até de deputados argentinos de oposição. Apesar da briga entre os presidentes e da ausência de um embaixador brasileiro em Buenos Aires, as relações comerciais e a cooperação dentro do Mercosul continuam funcionando normalmente. A posição de Brasília é clara: a relação com a Argentina é grande demais para ser abandonada, mas uma reaproximação presidencial depende de Milei parar com os ataques pessoais.
Do outro lado do mundo, a grande aposta do governo é a Ásia. Em novembro, Lula participa da cúpula da Asean, bloco que reúne as principais economias do Sudeste Asiático, como Indonésia, Tailândia e Vietnã. O objetivo é abrir novos mercados para produtos brasileiros e reduzir a dependência excessiva da China — que continuará sendo uma parceira prioritária, mas não pode ser a única. Diversificar parceiros comerciais é uma forma de proteger a economia brasileira de eventuais crises ou mudanças de humor de uma única potência.
Com o restante da América do Sul, o cenário é mais favorável. Mesmo governos alinhados a Trump, como os de Peru, Bolívia e Chile, preferem manter uma relação pragmática com o Brasil, que é o maior país da região e rota estratégica de acesso ao Atlântico. A grande aposta de Lula para a vizinhança é a cooperação em segurança pública, especialmente no combate ao narcotráfico — um problema que não respeita fronteiras nem ideologias. O plano é ampliar a atuação da Polícia Federal e da Interpol na região, com centros de inteligência na Amazônia e no Rio de Janeiro e uma possível nova estrutura em Buenos Aires. No fim das contas, o sucesso do Lula 4 no cenário global dependerá da capacidade do Brasil de defender seus interesses sem fechar portas — mesmo quando as provocações vierem de todos os lados.