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O empresário Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, prestou depoimento por videoconferência à Polícia Federal (PF) na manhã desta quinta-feira (27). Preso preventivamente desde março, Vorcaro foi ouvido pelos investigadores após o encerramento, sem sucesso, das negociações para fechar um acordo de delação premiada — recurso em que o investigado colabora com a Justiça em troca de redução de pena. Sem o acordo, ele foi intimado a responder diretamente sobre as fraudes apuradas no banco.
O foco da investigação é descobrir se o ex-banqueiro comprou a proteção de dois supervisores do Banco Central (BC), Paulo Sérgio Neves de Souza e Bellini Santana. Como o Banco Central é o órgão público encarregado de vigiar a saúde financeira dos bancos e proteger o dinheiro dos correntistas, a PF apura se esses servidores usaram a autoridade dos seus cargos para segurar fiscalizações, vazar informações sigilosas e tentar blindar o Banco Master enquanto a instituição entrava em colapso financeiro.
O alerta sobre o esquema disparou no início de 2025, quando o Master, sem dinheiro em caixa, começou a vender carteiras de crédito bilionárias para o Banco de Brasília (BRB). No entanto, auditores do BC descobriram que essas carteiras eram fictícias — ou seja, eram dívidas “fantasmas” usadas para captar recursos reais. Mesmo diante da gravidade da fraude, os dois supervisores investigados tentaram barrar o avanço das apurações internas, defendendo que o rombo fosse encoberto por um socorro financeiro ou pela fusão do Master com o banco estatal.
As suspeitas se agravaram após denúncias anônimas apontarem que os servidores recebiam vantagens financeiras ligadas a Vorcaro. Ao serem questionados internamente, ambos admitiram movimentações financeiras incomuns: Bellini declarou ter recebido R$ 1 milhão, além de pagamentos mensais contínuos, sob a justificativa de prestar serviços a projetos sociais, enquanto Paulo Sérgio vendeu uma fazenda por R$ 4,5 milhões a um parente do banqueiro. A PF apura se essas transações foram artifícios para lavar e disfarçar o pagamento de propina.
A troca de mensagens interceptada pela polícia também revelou uma proximidade inadequada entre os fiscais e Vorcaro, com discussões abertas sobre operações de socorro financeiro. O nível de desconfiança dentro da cúpula do Banco Central foi tão alto que a decisão final de liquidar — ou seja, fechar as portas em definitivo — o Banco Master precisou ser tomada sob sigilo absoluto para evitar vazamentos. Além do inquérito criminal, os dois funcionários públicos respondem a processos administrativos na Controladoria-Geral da União (CGU), onde podem perder os cargos.
Em nota, a defesa de Bellini Santana criticou os vazamentos do inquérito e negou veementemente qualquer irregularidade, afirmando que o servidor nunca recebeu vantagens indevidas, não compartilhou dados confidenciais e que a fiscalização era dividida entre várias equipes do Banco Central. Os outros envolvidos ainda não se manifestaram, e a matéria segue aberta para os seus posicionamentos.