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As empresas estatais federais brasileiras registraram um déficit acumulado de R$ 8,5 bilhões entre janeiro e setembro de 2025, conforme dados divulgados nesta sexta-feira (31) pelo Banco Central, configurando o pior resultado para o período de nove meses em toda a série histórica iniciada em 2002 e superando com folga o recorde negativo anterior para um ano inteiro fechado, os R$ 6,73 bilhões de prejuízo registrados ao longo de todo o exercício de 2024, o que evidencia uma aceleração preocupante da deterioração fiscal das companhias dependentes do Tesouro Nacional.
O cálculo do Banco Central exclui as maiores estatais do país — Petrobras, Eletrobras e bancos públicos como Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES —, abrangendo exclusivamente empresas de menor porte e menor capacidade de geração própria de receita, como Correios, Infraero, Casa da Moeda, Serpro, Dataprev, Hemobrás, Emgepron e Emgea, e utiliza a metodologia de variação da dívida, padrão internacional de análise fiscal, que difere do conceito “acima da linha” adotado pelo governo federal em suas prestações de contas oficiais.
O principal vetor do aprofundamento do déficit é a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, que acumula 15 trimestres consecutivos de prejuízo e fechou o primeiro semestre de 2025 com um rombo isolado de R$ 5,6 bilhões, valor que sozinho representa mais de 65% do déficit total de todas as estatais federais no período, refletindo uma crise estrutural provocada pela queda acelerada do volume de correspondências físicas em um cenário de digitalização crescente, combinada com uma folha de pagamento de mais de 90 mil funcionários e uma infraestrutura logística cara e envelhecida.
Para tentar estancar a sangria financeira dos Correios, o governo federal autorizou em maio de 2025 a diversificação das fontes de receita da estatal, permitindo que a empresa passe a comercializar seguros, títulos de capitalização e serviços de telefonia móvel por meio de convênios com instituições financeiras, como parte de um plano de reequilíbrio financeiro e reestruturação operacional em curso sob a coordenação do Ministério da Gestão, embora analistas de mercado avaliem que essas medidas levarão anos para produzir resultados financeiros significativos.
A perspectiva de médio prazo é igualmente desfavorável, uma vez que o próprio governo federal reconheceu no projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027, encaminhado ao Congresso Nacional em abril deste ano, que as estatais federais — em déficit ininterrupto desde 2023 — continuarão operando no vermelho pelo menos até 2030, diagnóstico corroborado pela Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão técnico vinculado ao Senado Federal, que em seu Relatório de Acompanhamento Fiscal de julho alertou para uma “deterioração perceptível” da saúde financeira de parte relevante das companhias estatais e para o consequente aumento do risco fiscal para o Tesouro Nacional.
O quadro fiscal das estatais federais coloca a administração pública diante de um dilema estrutural de difícil resolução: de um lado, a necessidade política e social de manter empresas como os Correios em funcionamento para garantir serviços essenciais a milhares de municípios do interior do país onde a iniciativa privada não tem interesse em atuar; de outro, a pressão crescente do mercado financeiro e dos organismos de controle para estancar a drenagem de recursos públicos em companhias que não conseguem se sustentar com receitas próprias e que, na ausência de reformas profundas em seus modelos de negócio, continuarão a depender de aportes cada vez mais volumosos do Tesouro Nacional, desviando recursos que poderiam ser destinados a áreas prioritárias como saúde, educação e segurança pública.